terça-feira, 17 de julho de 2012

Um café e um romance, s'il vous plaît!


“Me and Mrs. Jones
We got a thing going on
We both know that it's wrong
But it's much too strong to let it go now…”

O La vie sucrée é um pequeno e aconchegante café no coração da charmosa Chamonix, cidade localizada no interior da França e ao sopé de Mont Blanc, a mais alta montanha dos Alpes. Aqui faz muito frio, motivo pelo qual o café está sempre cheio de pessoas locais e turistas. Eu trabalho aqui há três anos e se eu tivesse que escolher uma das histórias que colecionei ao longo dos anos, sem pensar duas vezes eu lhe contaria sobre a Sra. Jones.  

Eu a conheci nos primeiros meses em que trabalhava aqui, une belle femme na casa dos trinta anos, sempre muito bem vestida e adornada com suas joias caríssimas. Foi ali em uma das mesas simples de madeira do La vie que ela conheceu e se apaixonou por Antoine, um jovem pintor com seus vinte e poucos anos. Não há como eu lhe contar a história da Sra. Jones sem conectá-la com a de Antoine.
Ele era bastante conhecido na cidade por seus quadros surrealistas, ele dizia que pintava os sonhos, que os dava vida através das tintas. Ela, por outro lado, era uma americana que viajava pelo mundo, embora tenha permanecido na cidade por muito tempo após conhecer o pintor.
O encontro dos dois no café se deu por acaso, por minha culpa, devo dizer. Eu acabei trocando o pedido dos dois e entreguei a Antoine o croissant que a Sra. Jones pedira, naquela confusão causei uma troca de olhares entre eles e quando menos percebi, estavam sentados numa mesa ao fundo do café, conversando ao som de uma melodia suave ao redor da fumaça que subia de suas xícaras. Houve muitos sorrisos naquela tarde.
Daquele dia em diante os dois passaram a se encontrar no café todos os dias da semana, ela sempre exuberante e o rapaz, vez ou outra, manchado de tinta. Assim eu vi que, aos poucos, alguma coisa surgia entre os dois. A Sra. Jones passou a ser muito mais simpática e aberta a sorrisos e os quadros de Antoine já não exibiam mais sonhos. Ele pintava a realidade de um romance delicioso, do jeito que os franceses adoram.
Era bonito vê-los juntos, de alguma forma estranhamente bela eles pareciam se completar. Os olhos deles brilhavam na presença um do outro e os sorrisos que escapavam da boca dela apareciam no rosto dele em questão de segundos.
Não importava o humor do tempo, eles sempre estavam ali. Enquanto a neve se derramava lá fora, enquanto a chuva insista em cair ou quando o sol atravessava a janela de vidro, o clima era muito banal para os dois.
Um romance como aquele, lindo de ver, deveria ser lindo de viver também, eu imagino. Depois de algum tempo de toques inseguros, surgiram os primeiros beijos tímidos e logo os dois passaram a se sentar um do lado do outro, pois costumavam sentar-se um a cada lado da mesa. Ela depositava a cabeça no ombro dele e feliz brincava com um canudo de chocolate na xícara.
Eu jamais vou me esquecer do olhar devastador que surgiu no rosto dos dois quando o marido da Sra. Jones arreganhou a frágil porta do café e os pegou sentados lado a lado. A raiva explodiu na feição do homem e ele agarrou Antoine ali mesmo e o atirou sobre a mesa ao lado, alguns fregueses que o conheciam, ajudaram a afastar o homem irado que saiu do café arrastando uma chorosa Sra. Jones.

Ela nunca mais voltou ao La vie no último um ano e meio e hoje sirvo um café achocolatado à mesa ao fundo com uma dor no peito só de ver o olhar de Antoine fixo na janela, esperando pacientemente pela volta de sua amada. 

Para saber:
S'il vous plaît - por favor.
La vie sucrée - A doce vida.
Une belle femme - uma linda mulher.

2 comentários:

Graça Pereira disse...

Uma história que li com muito interesse porque está muito bem contada! Parabéns...faltou só um cafézito que, a estas horas, sabia bem.
Beijo e bom fim de semana.
Graça

Deise Lima disse...

Ao som de Bublé? Num cafezinho na França? Haja sinestesia...e foi assim que me embalei e só tirei os olhos da tela quando vi o ultimo ponto. Que linda história, ia dizer linda e triste, mas prefiro dizer apenas linda, porque ela foi o mais feliz possível enquanto existiu, que venham outros Antoine e Mrs. Jones ao café!
Você sempre encantador Rody!
Um beijo!