sexta-feira, 29 de junho de 2012

A garota que queria virar livro



Queira se sentar, por favor, para que eu lhe conte a história de uma garota acreditou que amar era o suficiente para ser feliz.

Ela era tímida, talvez um pouco mais do que a maioria e de olhar compenetrado. Ela mentia e ruborizava quando dizia que não acreditava em contos de fadas e em histórias melosas de amor, porque sim, ela acreditava. Quando ela era apenas uma garota ela esperava o mundo, ela se preenchia de uma dose exorbitante de uma fé inabalável feito muralhas de um forte. Mas convenhamos, muitos fortes pereceram e muitos deles hão de perecer durante a história da humanidade.  
Seu nome não importa, pois todos a conhecem como a garota que desafiou o amor – e isso soa como um apelido extremamente chamativo que pode ou não fazer jus ao que aconteceu. Acredito que eu esteja prorrogando cansativamente minha narrativa, perdoe-me, às vezes meus dedos tropeçam e se arrastam por longas divagações desimportantes, mas que dão sentido à história, devo dizer. Voltemos à garota, sim?
Ela se apaixonou. Nada tão excepcional para uma garota que cresce aprendendo que o verbo amar deve ser conjugado em todas as suas formas, por todas as pessoas. Naquele tempo ela amava no presente do indicativo. Sonhadora como era, ingênua por natureza, caiu de amores por um personagem de um livro – existente dentro das páginas, irreal do lado de fora da capa.
Você entende que um amor como aquele seria impossível de se conjugar no futuro, não é? Bem, ela não entendia.
Nada nem ninguém eram capazes de dissuadi-la. Ela acreditava com todas as suas forças que aquele garoto do livro – tão romântico, carinhoso e dedicado – era alguém de carne e osso. O amor tomou-a por completo e transformou sua mente num mar revolto de fantasia. E quanto mais o tempo passava, mais ela mergulhava no gerúndio de continuar amando o menino-quase-perfeito.
Não é engraçado como as coisas acontecem? Quem diria que simplesmente amar a trouxesse tanta paz? Ela não esperava por retorno. Ela apenas queria que ele continuasse lá ao alcance de suas mãos e de suas vontades.
Todo verbo amar que se preze precisa ser conjugado por duas pessoas, essa é a regra e certas regras não mudam. Como fazer com que ele a amasse também? Eis que o impasse surgiu e a garota pôs-se a pensar num pretérito imperfeito do modo subjuntivo que pudesse lhe auxiliar. E se eu também fosse uma personagem do livro?
Assim, ela começou a reescrever a história do livro, de uma maneira invasiva e totalmente inaceitável para quem estivesse de fora – devemos entender seu ponto de vista, o amor é o gatilho da loucura e aquele tiro já fora disparado. Ela colocou-se dentro do livro, entrelaçou suas experiências e memórias em sua personagem real e encontrou pessoalmente seu amado no meio das páginas do romance.
O interessante é que nem todas as histórias podem ser modificadas e a vida não é algo tão simples que se possa comprimir em capítulos, sua grandiosidade precisa de espaço e a brochura não suportou demasiado fardo. Sua história vazou do livro e embora tivesse tentado trazê-lo ao mundo em seu aperto, ela não conseguiu. O menino-personagem permaneceu no mundo da ficção, assim como o coração abatido da garota-leitora.
Com o tempo aquele amor passou a ser conjugado no pretérito imperfeito do indicativo, os olhos da garota desgarraram-se das páginas e começaram a procurar um amor-real. Um amor que pudesse ser dado de volta, que pudesse ser compartilhado e que pudesse então, escrever sua própria história.
Hoje em dia não posso afirmar com certeza que ela ainda acredita em contos de fadas, mas posso dizer que ela espera o tão sonhado “felizes para sempre”. E que ela continue sonhando enquanto a vida lhe permitir e se encontrarem um menino-personagem que seja real, contem-no a história dessa garota, talvez ele saiba como chegar até ela e criar um desfecho para essa narração incompleta.

Pauta para Bloínquês 

Um comentário:

Lara Vic. disse...

Isso me lembra A série Mundo de Tinta, que nos faz questionar qual a grande diferença entre um personagem de livro e uma pessoa real. Eu mesma já me apaixonei por tantos personagens quando criança... Peter Pan especialmente. Quem sabe se eu tivesse tido a mesma iniciativa da garota, não fosse eu lá ao invés de Wendy?
Lindíssimo conto, não consegui desgrudar meus olhos da tela enquanto lia *-*