sábado, 2 de junho de 2012

Do outro lado do espelho


Tom observou atentamente seu reflexo, mas não reconheceu o rosto que o encarava de volta. Ele ficou assim por vários minutos até que alguém lhe tirasse de seu transe. Nada mais fazia sentido. Não era justo que tudo lhe tivesse sido tirado daquela maneira.

- Conte-me como foi que aconteceu – ele pediu ainda olhando para os próprios olhos profundos e vazios.
- Testemunhas disseram que ele cruzou a esquina em alta velocidade e você não teve tempo de se esgueirar, muitos acharam que você tivesse morrido na hora – contou o rapaz que não passava de um estranho.
- Por que eu não estou morto? – perguntou ele com amargor na voz.
- Porque cuidaram de você, os médicos fizeram de tudo para te salvar...
- Mas por que não me deixaram ir? Você acha que isto é justo? Como acha que eu me sinto por ter perdido tudo o que perdi?
- Você está vivo, é isso que importa – o rapaz retrucou.
- De que adianta estar vivo se não tenho uma vida pela qual viver? – Tom voltou seu olhar para o espelho e sentiu as lágrimas ofuscarem sua visão.
- Você não é como ela costumava me contar.

Ela. Tom lembrou-se dela e a lembrança apertou seu peito tão forte que ele precisou envergar o corpo para respirar sem dor. Ela o esperava aquele dia, não é? Eles tinham um encontro. Ela precisava lhe dizer alguma coisa, mas o quê?
Tom estava prestes a encontrá-la. A cena toda se desenrolou feito um filme em câmera lenta no espelho em sua frente.
O vento soprava de leve como se sussurrasse poesia no ouvido das árvores. Lá estava ela, encostada numa placa que ele não identificou, afinal, a maior relevância era ela. Era sua presença. Era seu sorriso e perfume que passeava pelo ar e buscava alcançá-lo. Eram todas as palavras que ele sentia vontade de dizer a ela.
Mas ele não viu quando ela virou o rosto para encará-lo. Ele não ouviu quando ela gritou em desespero quando o carro o atingiu. Ele não sentiu as lágrimas quentes dela se atiraram na poça que seu sangue formou no asfalto. Ele não viu nada disso, só o que viu, por vinte anos, foi o interior de suas pálpebras.

Ele despertara do coma há dois dias, estava sendo monitorado e apresentava estabilidade, seus reflexos estavam bons e seus movimentos pareciam perfeitos. O rapaz fora visitá-lo pela manhã daquele dia. Ele sobressaltou-se quando viu seu próprio corpo cruzar a porta do quarto e se dirigir em sua direção, mas aquele corpo não lhe pertencia. Ele era de um estranho.
- Onde está ela? – Tom perguntou ao livrar-se do devaneio.
O rapaz baixou os olhos, inseguro.
- Ela não vem. Ela pediu que eu viesse em seu lugar. Eu sou o que ela iria te contar naquela tarde, o filho de vocês.
Tom sentiu o coração saltar dentro do peito, um salto descompassado e escorregadio, que caiu em um abismo desolado. Ele tinha um filho. Ele perdera seu nascimento, seus primeiros passos e palavras. Ele perdera a chance de ensiná-lo a jogar bola e a andar de bicicleta, ele perdera a primeira briga na escola, a primeira conversa séria e conselhos sobre namoradas. Ele perdera tudo e perdera a mãe de seu menino, já homem em sua frente.
Seus olhos arderam ainda mais e ele chorou. Chorou de tristeza por tudo que a vida lhe privou. Chorou de remorso por tudo que não foi dito e chorou de raiva do destino por ter lhe tirado tudo aquilo.
- Vai ficar tudo bem, Tom – o rapaz o confortou, mas não foi o bastante. A palavra que ele esperava ouvir era outra, ele queria ser um pai.
Seu reflexo abatido no espelho tornou-se jovem enquanto ele assistia a cena novamente, mas desta vez ela se virava sorrindo e corria a seu encontro, lhe beijava apaixonadamente e se atirava em seus braços. De repente o mundo dentro do espelho ficou mais atraente que o real e ele se permitiu perder-se no tempo em seu interior.
Talvez tudo realmente ficasse bem, o tempo diria, porém o tempo não tinha sido nada além de seu inimigo nas duas décadas que se passaram.

Naquele instante ele só desejava que seus olhos cansados do escuro reencontrassem a luz e que nada mais lhe fosse tirado no tempo que ainda tinha pela frente. Se as coisas tivessem que ficar bem, elas ficariam, afinal a vida acontece do lado de cá do espelho, por mais que o outro lado finja ser mais belo.

Pauta para Bloínquês

2 comentários:

Evelyne disse...

Por mais que o conto seja triste eu amei.
Mais triste que lê-lo é pensar quantas pessoas não perdem vinte anos, ou até mais, vivendo a vida pelo lado de dentro do espelho, olhando para uma realidade distorcida. Passando pela vida sem viver....
Lindo, lindo.

renatocinema disse...

Adoro contos tristes, filmes tristes.

Apesar de não ser triste, se é que acreditem.

Amo a poesia do sofrimento.

Através do meu espelho vejo uma sombra da angústia desse conto.