sábado, 30 de abril de 2011

As flores, a menina e a caixa de correio


Lá no fim da estrada, perto do carvalho centenário, estava fincada a caixa de correio. As pequenas flores, de corpos frágeis e de ideias mirabolantes se esticavam o máximo que podiam para alcançar as cartas que eram depositadas no interior da caixa, sempre curiosas quanto ao seu conteúdo, mas devo dizer de antemão que nenhuma delas jamais obteve sucesso nessa empreitada.
A questão principal que você deve ficar ciente enquanto lê, é de que as flores conversam. Sim, elas são grandes fofoqueiras e tagarelam o tempo todo sobre os mais variados assuntos, há quem diga que elas se interessam até por política, mas acredito que isso não seja verdade, elas têm coisas mais importantes para discutir.
Além do papo que flui de uma pétala a outra, elas são muito observadoras, dedicam a parte do tempo que não estão conversando, a olhar ao redor, vendo o mundo por uma perspectiva diferente. Tudo parece extremamente gigante se você é uma flor, pelo menos é o que dizem.
Mas chega de papo furado e vamos ao que realmente interessa: a caixa de correio fincada no fim da estrada (tenho a sensação de que já disse isso).

A caixa estava vazia, e assim permaneceu por dois dias seguidos até a chegada do homem de uniforme. Ele vinha caminhando pela estrada, levantando poeira com seus passos pesados e despreocupados e é óbvio que as pequenas conversadeiras, já sabendo do visitante, se calavam e faziam a segunda coisa na qual eram especialistas, observavam.
Como de costume, ele descansou por um momento na sombra fresca do carvalho idoso, que nunca se irritou com isso, e então, com seus passos largos alcançou a caixa oca. Depositou meia dúzia de envelopes dentro dela e ergueu a bandeirinha, daquele mesmo jeito quando algum aluno ergue a mão quando quer dizer algo em sala de aula. Depois disso ele continuou seu caminho ao encontro de outras caixas vazias, enquanto as fofoqueiras enraizadas debatiam sobre as cartas recém chegadas.
Que indelicadeza a minha, esqueci de mencionar o local onde a caixa pertence, me perdoe, mas são tantas informações, divagações, empurrões que acabo por tropeçar no meio do caminho da narrativa. Parafraseando alguma madressilva: “a caixa no fim da estrada pertence à fazenda de leite do pai da menina da fita azul no cabelo.” Agora podemos continuar, certo?
Ah, sim, quem é a menina de fita azul no cabelo? Ela é uma garotinha muito esperta, que fica de longe esperando a caixa acenar com seu bracinho, indicando que estava cheia. Assim, ela era a responsável por esvaziá-la, uma tarefa de grande importância, a qual ela exercia com louvor. Naquele dia ela saltitou pelo campo por entre as flores e apanhou todos os envelopes, levando junto consigo o terrível destino de sua família.
No envelope branco, seco e impessoal, estava carimbado em vermelho as três palavras mais assustadoras para aquelas pessoas que moravam ali. Ordem de despejo.

Por um longo tempo as flores comentaram sobre o dia em que a família pisou naquela estrada de terra pela última vez, o olhar choroso da garotinha foi triste de assistir, a mãe a consolava como podia e o pai, o fazendeiro de leite, com os olhos cheios d’água observou de longe a casa que não mais seria sua. E essa cena derradeira ficou na memória do carvalho e a história da menina era contada para cada novo botão de flor que nascia.
O carteiro, em seu uniforme conhecido, ainda passa por ali vez ou outra, descansa na sombra, enche a caixa e vai embora. Provavelmente ele não sabe que não tem mais ninguém para esvaziá-la, sendo assim, o braço da caixa, cansado e imóvel, porém ainda esperançoso, permanece erguido no ar.
O que aconteceu com a família? Bem, ninguém pode dizer isso com certeza. Então façamos como as flores, vamos imaginar.


Pauta para Suas Palavras e Créativité.




5 comentários:

renatocinema disse...

Adoro, sinceramente, os contos desse site. Todos possuem emoção, delicadeza e riqueza na narrativa.

Adriana Antunes Polak disse...

Idem! Me encanta os contos desse site.

Parabéns!
Bjos.

Babizinha disse...

Você possui verdadeiro poderio sobre as palavras e sabe usá-las para nos conduzir e imaginar todos os cenários que nos expõe. Adoro!

Beijos, Rodolpho!
:*

Sam disse...

Gostei muito desse blog e agora estou seguindo. espero a visita de vocês nos meus dois humildes blogs.

Beijosss *-*

Alexandre Fernandes disse...

Que conto suave! Tem uma doçura tão singela. É uma historinha que encanta pela simplicidade deslumbrante que se firma na forma da narrativa, e no modo como as coisas são descritas.

Lindo!

Abraços!